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Monday, January 7, 2019

PT -- Manlio Dinucci -- A Arte da Guerra -- A Itália e a União Europeia votam a favor dos mísseis USA na Europa

Resultado de imagem para pictures of the statue given by Russia of Saint George», at The United Nations

Escultura, quartel general da ONU, Nova York
“Escultura que representa São Jorge a matar o dragão. O dragão
é feito de fragmentos de mísseis soviéticos SS-20 e americanos
Pershing.”
 (UN Photo/Milton Grant)



A Arte da Guerra
A Itália e a União Europeia votam a favor dos mísseis USA
na Europa
Manlio Dinucci



No Palácio de Vidro das Nações Unidas, em Nova York, há uma escultura de metal intitulada “O Bem Derrota o Mal”, representando São Jorge que trespassa um dragão com a sua lança. Foi doada pela URSS, em 1990, para celebrar o Tratado INF, estipulado com os Estados Unidos, em 1987, que eliminava os mísseis nucleares de curto e médio alcance (entre 500 e 5500 km) baseados em terra. O corpo do dragão é feito, de facto e simbolicamente, com pedaços de mísseis balísticos norte-americanos Pershing II (os primeiros instalados na Alemanha Ocidental) e de SS-20 soviéticos (os primeiros criados na URSS).

Mas, agora, o dragão nuclear, que na escultura está representado a agonizar, está a voltar à vida. Graças à Itália e, também, a outros países da União Europeia que, na Assembleia Geral das Nações Unidas, votaram contra a resolução apresentada pela Rússia sobre a “Preservação e cumprimento do Tratado INF”, rejeitada por 46 votos contra 43 e 78 abstenções. A União Europeia - da qual 21 dos 27 membros, fazem parte da NATO (como faz parte, a Grã-Bretanha, de saída da União Europeia) - está totalmente enfileirada com a posição da NATO, que, por sua vez, está totalmente alinhada com a do Estados Unidos.

Antes, a Administração Obama e, a seguir, a Administração Trump, acusaram a Rússia, sem nenhuma prova, de ter experimentado um míssil do tipo proibido e anunciaram a sua intenção de se retirar do Tratado INF. Simultaneamente, lançaram um programa para instalar, de novo, na Europa, mísseis nucleares apontados contra a Rússia, que também seriam colocados na região da Ásia-Pacífico, contra a China. O representante russo na ONU alertou que “isto constitui o início de uma corrida armamentista para todos os efeitos”. Por outras palavras, advertiu que, se os Estados Unidos instalassem, de novo, na Europa, mísseis nucleares orientados para a Rússia (como também estavam os mísseis de cruzeiro instalados em Comiso, na década de oitenta), a Rússia instalaria no seu território, outra vez, mísseis análogos apontados aos alvos na Europa (mas que não são capazes de alcançar os Estados Unidos).

Ignorando tudo isto, o representante da União Europeia na ONU, acusou a Rússia de minar o Tratado INF e anunciou o voto contra de todos os países da UE, porque “a resolução apresentada pela Rússia desvia do assunto que se está a discutir.” Portanto, em substância, a União Europeia deu luz verde à possível instalação de novos mísseis nucleares USA na Europa, incluindo na Itália.

Numa questão de tamanha importância, o Governo Conte, renunciando - como os anteriores - a exercer a soberania nacional, enfileirou-se com a União Europeia, que por sua vez, se alinhou com a NATO, sob comando USA. E da totalidade do arco político, não se ergueu uma única voz a pedir que fosse o Parlamento a decidir como votar na ONU. Nem no Parlamento se ergue nenhuma voz a exigir que a Itália observe o Tratado de Não-Proliferação, impondo aos USA a retirada do nosso território nacional, das bombas nucleares B61, e de não instalar, a partir da primeira metade de 2020, a nova e ainda mais perigosa B61-12. Assim, é novamente violado o princípio constitucional fundamental de que “a soberania pertence ao povo”. E, visto que o aparelho político-mediático mantém os italianos deliberadamente no escuro sobre estas questões de importância vital, é violado o direito à informação, no sentido não só de liberdade de informar, mas do direito de ser informado.

Ou se faz agora ou amanhã não haverá tempo para decidir: um míssil balístico de alcance intermédio, para atingir e destruir o alvo com a sua ogiva nuclear, necessita de 6 a 11 minutos.

il manifesto, 8 de Janeiro de 2019

NO WAR NO NATO

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Manlio Dinucci

Geógrafo e geopolitólogo. Livros mais recentes: Laboratorio di geografia, Zanichelli 2014 ; Diario di viaggio, Zanichelli 2017 ; L’arte della guerra / Annali della strategia Usa/Nato 1990-2016, Zambon 2016, Guerra Nucleare. Il Giorno Prima 2017; Diario di guerra Asterios Editores 2018.

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos





Monday, June 4, 2018

PT -- GUERRA NUCLEAR: Nota sobre o Autor


MANLIO DINUCCI

“Copyright Zambon Editore”


GUERRA NUCLEAR
O DIA ANTERIOR
De Hiroshima até hoje:
Quem e como nos conduzem à catástrofe



Nota sobre o Autor


Manlio Dinucci, jornalista e ensaísta, viveu e trabalhou em Pequim na década de 1960,  contribuindo para a publicação da primeira revista chinesa em língua italiana e à difusão das Cartas da Chinada jornalista americana Anna Louise Strong.

Baseado nessa experiência publicou, com a Mazzotta Editore, La lotta di Classe in Cina / 1949-1974 (1975) e Economia e organização do trabalho na China (1976).

Na década de 1980, dirigiu a revista Lotta per la pace (nascida do «Apelo contra a instalação de mísseis nucleares em Itália», lançado em 1979 por Ludovico Geymonat e outros) e foi director executivo para a Itália do International Physicians for the Prevention of Nuclear War, associação vencedora do Prémio Nobel da Paz em 1985.

Co-autor, com Tonino Bello e outros, de Fianco Sud / Puglia, Mezzogiorno, Terzo Mondo: rapporto sui processi di militarizzazione (Piero Nanni, 1989).

Co-autor, como o Prémio Nobel de Medicina, Daniel Bovet, de Tempestado do deserto / As armas do Norte, o drama do Sul, com a apresentação de Ernesto Balducci (Edizione Cultura della Pace, 1991). Com a mesma casa editora publicou Hyperwar / Dalla “iperguerra” del Golfo alla Conferenza sul Medio Oriente (1991) e La strategia dell’impero/ Dalle direttive del Pentagono al Nuovo Modello di Difesa (1992), escrito con U. Allegretti e D. Gallo e apresentado por R. La Valle.

Autor de L’oro e la Spada / Imperi economici e guerre di conquista nell’era del capitale globale (Comutato Golfo, 1993).
Autore de Il potere nucleare (Fazi Editorer, 2003).
Co-autor, com A. Burgio e V. Giacché, de Escalation / Anatomia della guerra infinita (DeriveApprodi, 2005).

Autor de L’Arte Della Guerra (Zambon Editore, 2015). Colaborador do il manifesto, com a rubrica semanal L’Arte della Guerra. Colaborador de Pandora TV, dirigida por Giulietto Chiesa. Também é autor de textos escolares de geografia humana.


Um agradecimento particular a Jean Roschi Marazzani Visconti, jornalista e escritora, que, com as suas ideias e o seu trabalho, contribuiu para a criação deste livro.


Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos

PT -- GUERRA NUCLEAR: NOTA DA REDACÇÃO

MANLIO DINUCCI

“Copyright Zambon Editore”


GUERRA NUCLEAR
O DIA ANTERIOR
De Hiroshima até hoje:
Quem e como nos conduzem à catástrofe



Nota da Redacção

Em 12 de Junho de 1901, o físico francês, Henri Becquerel, identificou e quantificou pela primeira vez, a radiação proveniente de uma amostra de urânio. O fenómeno será classificado, sucessivamente, por outra cientista francesa, Marie Curie, como radioactividade.

Esta descoberta,no principio da década de 1900, abre a estrada para um futuro inimaginável, ao progresso nos campos médico e energético, a descobertas que anunciavam riqueza e felicidade para toda a Humanidade. Mas abria, também, o caminho para o desenvolvimento da radioactividade no campo militar e, em seguida, ao uso da ameaça nuclear como supremacia política. A um século de distância, a maravilha científica é substituída pelo temor difuso de um perigo furtivo e permanente.

A Associação dos Cientistas Atómicos Americanos, responsável pelo desenvolvimento extraordinário do nuclear e, consciente da sua responsabilidade, mudou o ponteiro do Relógio do Apocalipse, o assinalador do tempo simbólico do risco nuclear, de 3 minutos para a meia noite em 2015, para 2,5 minutos para a meia noite em 2017.

Manlio Dinucci, com o seu livro ‘Guerra Nuclear – O Dia Anterior’, explica com precisão documentada, a História dos últimos setenta anos de convivência com o nuclear e denuncia quem são os que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial,  a usam sem receio no que  respeita à segurança dos seres vivos e como eles querem nos levar à catástrofe, ao deserto nuclear.

Tudo começou em Agosto de 1945. O Presidente dos Estados Unidos, Henry Truman, tomou uma decisão terrível: a de lançar uma bomba atómica sobre o Japão, para pôr um fim à guerra, já terminada na Europa. Ordenou ao Comandante da Força Aérea Americana no Pacífico, Carl Spaaz, de lançar um engenho sobre uma cidade de tamanho médio. Foram escolhidas quatro cidades mediante a importância e a localização. No fim o destino recai sobre duas delas, Hiroshima e Nagasaki, em parte, por razões metereológicas. Uma imensa bola de fogo envolveu a cidade, transformando-se numa enorme núvem de fumo em forma de cogumelo. Esta forma característica tornar-se-á a imagem clássica da catástrofe nuclear tão temida. O bombardeamento causará a morte imediata de, pelo menos, de cem mil pessoas no perímetro de 1,5 km do epicentro da explosão. As radiações atingiram dezenas de milhares de pessoas que continuaram a morrer ao longo dos anos. Tinha sido libertado um monstro que não se podia conter, invísivel e altamente mortal.

Será que o Presidente Truman tinha escolhido, realmente, lançar o engenho, unicamente, para pôr fim à guerra no Pacífico? Talvez as coisas não sejam assim. É sabido agora, que o Japão tinha oferecido, através de diversos canais diplomáticos, a sua rendição, mas impunha a condição não renunciável da intocabilidade da figura do Imperador. A minoria da esquerda nos USA, era contrária a exonerar o maior responsável pelo militarismo japonês da sua responsabilidade e Truman, de repente, sensível ao pedido da esquerda, fortaleceu-se com esta recusa para, deste modo, rejeitar as diligências da diplomacia japonesa. Será  possível que o Presidente americano, ao atingir o Japão, quisesse na realidade, ameaçar e redimensionar o papel dos Soviéticos, os verdadeiros vencedores do nazismo na Europa? (Gian Luigi Nespoli e Giuseppe Zambon, Hiroshima-Nagasaki, Zambon Editore, Verona 1997).

As primeiras reportagens da cidade bombardeada deixaram as pessoas petrificadas perante esta enorme força desconhecida. A monstruosa quantidade de mortos e feridos de patologias desconhecidas e não curáveis causadas pelas radiações, impressionou o mundo inteiro, entregando aos Estados Unidos  o troféu de nação invencível.

Em seguida, o Pentágono continuará a financiar os estudos sobre o nuclear e, no final da presidência de Eisenhower, o Complexo militar/industrial começará a influenciar a política americana, exarcebando o perigo do comunismo e de uma possível invasão soviética da Europa. Este estado de guerra não declarada encorajava uma corrida ao armamento que fazia andar a toda a velocidade as fábricas, enquanto os aliados europeus, a Grã-Bretanha e a França, por sua vez, se esforçavam  para dotar-se da bomba atómica e poder, assim, aceder à mesa dos poderosos. A URSS, obviamente tentou recuperar o tempo do atraso tecnológico que a afastava dos USA. Assim, o nuclear entrava na cena política internacional como dissuasão entre as forças em oposição durante a Guerra Fria.

Durante muitos anos, temeu-se que um erro furtuito na sala dos botões pudesse terminar a existência da Humanidade. Só depois da dissolução da União Soviética e com os diversos tratados para o controlo do rearmamento nuclear,  nos anos seguintes, é que se acreditou que não se devia temer o nuclear. Mas como demonstra o livro de Dinucci, tratava-se de um falso sentido de segurança, porque, em silêncio, continuou a pesquisa e a produção de novas armas muito sofisticadas.

Hoje estamos novamente perante os Estados Unidos que desafiam a Rússia, com um olhar para a China, uma situação semelhante à da Guerra Fria, mas muito mais temível, porque ao contrário da década de 1970, quando os antagonistas tinham concordado com um último telefonema através  do famoso telefone vermelho antes de qualquer acção definitiva, actualmente todos os adversários sabem que só obtém a vitória, quem lançar o primeiro míssil.

Revela o Washington Post que se autorizam ataques preventivos contra os Estados que estejam quase a comprar armas de destruição em massa.Em plena sintonia com a teoria do PNAC (Project for a new American Century, Projecto para um novo século americano)formulado pelos neo-conservadores e cada vez mais aplicada à política americana: A História do Sec. XX deveria ter ensinado que é importante plasmar as circunstâncias antes que as crises surjam e enfrentar a ameaça nuclear e enfrentar as ameaças antes que se tornem trágicas.A História deste século deveria ter ensinado a abraçar a causa de uma liderança americana... estabelecer uma presença estatégica militar em todo o mundo através de uma revolução tecnológica no contexto militar, desencorajar o aparecimento de qualquer super potência competitiva, lançar ataques preventivos contra quaisquer poderes que ameacem os interesses americanos.

Da narrativa do nascimento da bomba e da aniquilição das duas cidades japoneasas até há corrida renovada aos armamentos, com um percurso de nove capítulos densos de informação e pormenores documentados, Manlio Dinucci introduz o leitor no mundo do nuclear e da política que o acompanhou sobre o fundo de um cenário internacional em mudança. O autor revela acidentes nucleares desconhecidos, o risco das centrais atómicas obsoletas e os atentados às mesmas, o uso do urânio empobrecido nos bombeardeamentos na Jugoslávia e no Iraque, as guerras escondiddas, as guerras comissionadas, as guerras no Médio Oriente, o nascimento do ISIS, a inquietante cumplicidade americana no armamento dos terroristas islâmicos, a NATO e a CIA a trabalhar na Ucrânia, a perigosa expansão da NATO nos países de Leste em direcção à Rússia.

A política estrangeira americana parece dividir a Europa em duas entidades: de um lado a nova Europa, constituída pelos antigos países satélites da União Soviética – Repúblicas dos Balcãs, Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Bulgária, Roménia e, do outro lado, a parte fundadora da União Europeia. A primeira é considerada a aliada mais firme, onde fazer fluir financiamentos, armas, soldados e bases de mísseis para instalar contra a Rússia; a segunda é mantida sob controlo,para que não ouse conspirar economica e financeiramente com a Rússia ou outras nações inscritas no livro negro dos EUA, penalidades pesadas, ameaças de sanções e crises bancárias. Quase toda a Europa é membro da NATO e alberga grande número de bases militares que armazenam armas e bombas nucleares em Itália, Bélgica, Holanda e Alemanha. É evidente que a Europa está numa posição de sujeição aos Estados Unidos e é considerada a parte fraca das forças em campo.

Um capítulo do livro descreve as novas armas e abre uma antevisão da guerra estelar: a mudança das armas cinéticas em armas de energia dirigida.Não usam mais balas, mas impulsos electromagnéticos, ondas de calor, armas cibernéticas e outras diabruras de ficção científica que só tinhamos visto em filmes e como tal, pensávamos ser pura fantasia. Hoje são uma realidade terrível, como os drones miniaturizados com as mais diversas utilizações, como matar por comando remoto ou transportar mini-nukes, que espalham epidemias ou mais simplesmente, mosquitos espias. Igualmente incrível é o desenvolvimento dos sistemas espaciais e dos aviões robotizados para destruir os satélites das comunicações dos adversários e para enviar armas para o espaço.

No final desta extraordinária cavalgada ao longo da história dos nossos anos mais recentes, o livro explica a posição actual do poder americano, reivindicando a defesa do amargo fim dos seus privilégios antes do aparecimento de outros poderes. Para este fim a pressão militar americana aumenta em todos os continentes. O Pentágono controla directamente, 4.800 bases e outras instalações militares. O mundo está dividido em seis áreas, cada uma das quais está submetida ao controlo de outros tantos Comandos Combatentes Unificados dos Estados Unidos. A estes Comandos juntam-se três operacionais à escala global que presidem as forças nucleares terrestres, navais e as operações no espaço e ciber espaço, a guerra electrónica e missilística; as operações especiais e as operações psicológicas; o transporte, a mobilidade e o abastecimento dos exércitos.

Dinucci conta com precisão as funções de cada uma e o panorama descrito é impressionante, porque se desenvolve paralelamente ao nosso quotidiano, na quase total ignorância do público, que é tido deliberadamente na ignorância do facto de que as bases constituem o primeiro objectivo destinado a receber o contra ataque.


 

A seguir:
Nota sobre o Autor

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos


Sunday, June 3, 2018

PT -- GUERRA NUCLEAR -- APÊNDICE

MANLIO DINUCCI

“Copyright Zambon Editore”


GUERRA NUCLEAR
O DIA ANTERIOR
De Hiroshima até hoje:
Quem e como nos conduzem à catástrofe


APÊNDICE

A voz da Ciência e da Cultura

O período crucial entre o fim dos anos setenta e início da década de 1990, conpreendendo a última fase do confronto nuclear NATO-Pacto de Varsóvia e a abertura do depois da Guerra Fria com a primeira guerra do Golfo, viu em Itália, uma grande mobilização pacifista em que participavam personalidades notáveis da ciência e da cultura. Relatamos nestas páginas algumas das suas tomadas de posição, cuja leitura oferece ideias de extrema actualidade: o Apelo sobre a instalação iminente de mísseis nucleares de cruzeiro em Itália, lançado pelo filósofo da Ciência, Ludovico Geymonat: a apresentação do Prémio Nobel Daniel Bovet e Carlo Rubbia e do Prof. Alberto Malliani, documentos científicos sobre os efeitos da guerra nuclear; a reflexão do Padre Ernesto Balducci sobre o significado da primeira guerra do Golfo.

Apelo contra a instalação de mísseis nucleares em Itália (20 de Novembro de 1979)

Uma nova ameaça recai sobre o nosso povo: o «Grupo de Planificação Nuclear» da NATO exprimiu um parecer positivo a respeito do plano americano de distribuir em vários países europeus, entre os quais Itália,  os mísseis de cruzeiro e os Pershing II de ogiva nuclear. É uma decisão gravíssima. A instalação no nosso continente de tais armas, que não são tácticas e defensivas, mas sim, estratégicas e ofensivas, faria da Europa ocidental a primeira linha de um eventual conflito nuclear. Em particular a Itália, que tem uma posição subordinada também no campo militar, seria apenas uma plataforma de lançamento e um alvo.

Como relatado pela imprensa internacional, os USA têm no continente europeu 7.000 ogivas atómicas (1.500 em Itália), cuja potência equivale a duas toneladas de explosivos por cada habitante dos países da NATO. Neste verdadeiro barril de pólvora nuclear, Washington quer introduzir outros mísseis ainda mais perigosos.

O povo italiano, os povos da Europa e do mundo não podem assistir, como simples espectadores, à escalada de tal «equilíbrio de terror». É necessário quebrar esta lógica fatal, o mais rápido possível.

Seja o povo italiano – milhões de trabalhadores, jovens e mulheres – a dar o exemplo, impedindo que sejam instalados no nosso país estes instrumentos de morte. Nasça nas fábricas, em todos os lugares de trabalho e de estudo, nos bairros, um movimento popular em defesa da paz e da independência nacional.

Cada força realmente  decidida a bater-se por estes objectivos, cada progressista é chamado a assumir uma responsabilidade precisa: a de fazer todo o possível para impedir que o governo italiano dê o consentimento à instalação de mísseis no nosso país, para que faça acontecer iniciativas a nível europeu e mundial, destinadas a conseguir um desarmamento nuclear generalizado. Devemos fazer com que o nosso povo não repita a experiência trágica da guerra mundial, que não seja envolvido num conflito nuclear.

6. Não às armas nucleares no nosso país. Não a uma escolha que, inevitavelmente, aumentaria a tensão. Sim às negociações, a uma política que quebre a corrida armamentista. Vamos defender a nossa vida, tomando o nosso destino nas nossas mãos.

Ludovico Geymonat, Professor de Filosofia da Ciência na Universidade de Milão
Nino Pasti, Senador da Esquerda Independente
Enzo Enriques Agnoletti, Director da revista «Il Ponte»
Giovanni Pesce, medalha de ouro de valor militar da guerra partidária
Filippo Paone, Magistrado governador de Roma
Eleonora Turziani, oficial da 3ª Divisão partidária «Giustizia e Libertà»
Antonio Cardilli, membo da Coordenação Nacional dos Conselhos, da Fábrica do Grupo Ansaldo
Giuseppe Semerari, Professor de Filosofia Teórica na Universidade de Bari
Manlio Dinucci, Director da revista «Lotta per la Pace»

As consequências da guerra nuclear*

Daniel Bovet, Prémio Nobel da Medicina
Carlo Rubbia, Prémio Nobel da Física

Com a conquista das imensas forças que estão contidas no núcleo atómico, pela primeira vez na sua História, o Homem  adquiriu a possibilidade concreta de destruir os seus semelhantes à escala planetária e assim, de dar um golpe mortal à vida em todo o nosso planeta. Esta corrida ao desenvolvimento de armas cada vez mais potentes, iniciada em 1942 com o começo do «Projecto Manhattan» e com o holocausto nuclear das cidades de Hiroshima e Nagasaki, é prosseguida nos anos Cinquenta e no começo da década de 1960 através das fases de explosões esperimentais, na atmosfera e na superfície, de engenhos cada vez mais destrutivos.

Não há qualquer dúvida que hoje, um confito nuclear generalizado, mais do que destruir directamente a maior parte da população do nosso planeta, causaria, durante meses seguidos, o escurecimento da luz solar e uma diminuição dramática da temperatura do nosso globo, o designado «Inverno Nuclear». Devido a temperaturas sub-polares extinguir-se-iam, definitivamente, um enorme número de formas de vida vegetal e animal no nosso planeta, não excluindo também a espécie humana.

Um grupo de médicos reunidos na associação apolítica internacional  - International Physicians for the Preventionof Nuclear War (I.P.P.N.W.)   procura há anos, sensibilizar a opinião pública sobre as consequências atrozes de um conflito nuclear, mesmo que seja limitado. Em caso de ataque nuclear não haveria tratamentos, nem hospitais, nem médicos, nem enfermeiros, nem ambulâncias, nem farmácias para acalmar a agonia atroz de milhões de pessoas  feridas, queimadas, cegas, sujeitas à radiação ou, simplesmente, esfomeadas e em estado de choque.
Mas, neste momento, temos necessidade de homens que sintam a responsabilidade de dar conhecimento aos outros homens sobre o problema das consequências da guerra nuclear e de ter a coragem de enfrentá-lo, aberta e cientificamente.

*Excerto da apresentação do volume de Herbert L. Abrams e AAVV, Le implicazioni mediche e sociali della guerra nucleare /Edizione GB, 1988

A  prevenção da guerra nuclear*

Alberto Malliani, Professor de Patologia do Hospital Médica L. Sacco, Universidade de Milão

Os médicos, que têm a responsabilidade da vida dos seus pacientes e da saúde da comunidade, devem começar a explorar uma nova área da medicina preventiva, a prevenção da guerra nuclear. Visto que esta última epidemia não pode ser curada, mas apenas prevenida.

O que devem tentar? Tudo. Tudo o que a consciência e a cultura aconselhem a tentar. Neste sentido, os trabalhos científicos da IPPNW parecem ter tirado a tampa de um monstruoso vaso de Pandora, contendo todos os males espalhados pela Terra, mas agora sob a forma de pesadelos alucinantes.

Nesses trabalhos científicos resultam, sinistramente evidentes, os possíveis efeitos de uma guerra nuclear sobre o género humano, sobre a biosfera. Poder-se-ia pensar que se trata de noções óbvias, facilmente disponíveis para qualquer um. Não é assim. Às vezes, o óbvio é mantido escondido mais do que qualquer outro segredo, com a cumplicidade de todos que não querem saber ou não querem pensar. Que preferem afastar tudo da sua consciência porque é «absurdo», sem perceber que agora, o absurdo é factível. Pelo contrário, é assustadoramente provável: porque um conflito nuclear pode ser desencadeado por engano ou pela insanidade dos que detêm essas armas. Dizendo de uma maneira mais simples, porque o Homem criou um sistema de morte tão perfeito que requer um controlo perfeito. Mas a perfeição nos controlos não existe: por definição, antes ou depois, o controlo irá falhar.

Na História da Humanidade as armas foram sempre usadas, antes ou depois. Quanto a imaginar um conflito limitado é um pouco como pretender a explosão de meio reservatório de gasolina. A IPPNW demonstra que são impensáveis, uma guerra nuclear limitada ou uma defesa civil limitada. Em breve a Terra seria povoada sobretudo ou apenas, por insectos.

* Excerto da introdução do volume dos Internacional Physicians for the Prevention of Nuclear War, L’ultimo aiuto /Le dimensioni mediche della guerra nucleare, Gabriele Mazzotta Editore, 1983

A ideia da guerra tornou-se de novo um projecto operacional*

Padre Ernesto Balducci

Einstein tinha mesmo razão: a bomba atómica mudou tudo, excepto a nossa maneira de pensar. E, de facto – os meses da guerra do Golfo fizeram-no perceber – sobrevivemos aos esquemas mentais e significativos da idade moderna, enquanto a realidade à qual eles tradicionalmente se referem, já mudou.

Se a maior parte dos intelectuais do Ocidente, os que têm na mão a grande hereditariedade da cultura laica de tipo iluminado e estão alienados com a estratégia militar dos USA, é porque eles permaneceram no interior do paradigma antropológico e político ocidental, cuja função prática é a remoção do ponto de vista dos outros, quero dizer, dos povos e das culturas que são estranhas ao perímetro em que as glórias e o nefasto da modernidade ocorreram.

A ideia da guerra, que permaneceu ibernada durante o longo conflito ideológico entre o Oriente e o Ocidente,tornou-se, de novo, um projecto operacional com todos os selos da legalidade. Os generais de todo o mundo, ameaçados há um ano de aposentadoria definitiva, estão rejuvenescidos com o beijo da História. Se algum deles teve dúvidas sobre a legalidade de uma verdadeira guerra, é banido pela desaprovação pública. Se os magistrados levantam dúvidas sobre a legalidade constitucional da presença das tropas italianas nas operações militares do Golfo, o Presidente da República, guardião dessa legalidade, indigna-se e exorta os audazes a demitirem-se, em vez de abrir a mente para alguma dúvida saudável.

As conquistas jurídicas que conduziram a Humanidade à certeza razoável de que agora a guerra deveria ser relegada às memórias do passado, são evitadas por hipocrisia ou cinicamente renegadas; os homens a favor da paz são demonizados como se fossem terroristas das Brigadas Vermelhas com uma nova pele.

As razões da guerra ultrapassaram a função mundial da ONU e entregaram o destino da Humanidade a uma única potência, que é aquela em que se concilia ao máximo a fusão entre os poderes tecnológicos, militares e industriais.

Se bem que o vulcão já não fumegue, no subsolo da História continuarão a agir, os impulsos irreprimíveis que ameaçam o futuro.

*Extracto do prefácio de Tempestade no Deserto de Daniel Bovet e Manlio Dinucci, Edizione Cultura della Pace, febbraio 1991

A seguir: 
Nota da redacção

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos

Sunday, May 27, 2018

PT -- GUERRA NUCLEAR: 9.4 A desatracagem da Itália da máquina de guerra USA/NATO, para uma Itália soberana e neutra, liberta de armas nucleares

MANLIO DINUCCI

“Copyright Zambon Editore”


GUERRA NUCLEAR
O DIA ANTERIOR
De Hiroshima até hoje:
Quem e como nos conduzem à catástrofe



9.4  A desatracagem da Itália da máquina de guerra USA/NATO, para uma Itália soberana e neutra, liberta de armas nucleares
   
A Itália assinou, em 1969 e ratificou, em 1975, o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares que, no Artigo 2 estabelece: «Cada um dos Estados militarmente não nucleares, que seja Parte do Tratado, compromete-se a não receber de quem quer que seja, armas nucleares ou outros dispositivos, nem o controlo sobre essas armas e engenhos explosivos nucleares, directa ou indirectamente».

Esse compromisso é iludido pelo facto da Itália fazer parte da NATO, a qual, no Conceito Estratégico de 2010 , adoptado pela Cimeira de Lisboa, estabelece: « A garantia suprema da segurança dos Aliados é fornecida pelas forças nucleares estratégicas da Aliança, particularmente, as dos Estados Unidos; as forças nucleares estratégicas independentes, do Reino Unido e da França, que têm a sua própria função de dissuasão, contribuem para a dissuasão e para a segurança total dos Aliados».

Dentro da NATO, a Itália faz parte do Grupo de planificação nuclear, formado pelos Ministros da Defesa de todos os países membros, excepto o da França, que se encontram regularmente para discutir e decidir (sempre à porta fechada) sobre as questões específicas da política nuclear da Aliança.

Ao mesmo tempo, a Itália faz parte, no interior da NATO, do grupo de países que «fornecem à Aliança, aviões de dupla capacidade, disponíveis para as funções nucleares». A NATO especifíca que «na sua função nuclear, estes aviões estão equipados para transportar bombas nucleares e o pessoal está instruído para esse fim», mas que «os Estados Unidos mantém o controlo absoluto e a guarda das armas nucleares associadas». Deste modo, a NATO admite, oficialmente, que os Estados Unidos fornecem armas nucleares aos países membros da Aliança não nucleares, violando o Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares, assinado pelos Estados Unidos em 1968 e ratificado em 1970, cujo Artigo 1 estabelece:«Cada um dos Estados militarmente nucleares, que seja Parte do Tratado, compromete-se a não transferir a quem quer que seja, armas nucleares ou outros dispositivos nucleares explosivos ou o controlo dessas armas e engenhos explosivos, directa ou indirectamente».

O facto de que os pilotos italianos são treinados para o ataque nuclear sob comando USA – segundo confirma a FAS – é demonstrado pela presença em Ghedi do 704th Munitions Support Squadron, uma das quatro unidades da U.S. Air Force deslocada nas bases europeias (além disso, em Itália, na Alemanha, Bélgica e Holanda) «onde as armas nucleares USA estão destinadas a ser lançadas pelos aviões dos países hospedeiros». Os pilotos dos quatro países europeus e os pilotos turcos, já peritos no uso da bomba B-61, são agora preparados nos centros de treino, nos EUA, para usar a B61-12. A sua preparação é completada com o Steadfast Noon, o exercício anual de guerra nuclear da NATO, ocorrido em 2013, em Aviano e em 2014, em Ghedi.

A Itália – que não só faz parte do Grupo de planificação Nuclear, mas é um dos países que fornecem à NATO, aviões e pilotos para o ataque nuclear – não pode tomar decisões autónomas, em contraste com o Conceito Estratégico 2010, que ela própria aprovou na Cimeira de Lisboa. O Conceito Estratégico estabelece que «as armas nucleares constituem uma componente fundamental da capacidade de dissuasão e defesa da NATO, juntamente com as forças convencionais e de defesa missilística». O mesmo «compromete a NATO a lutar pelo objectivo de criar as condições para um mundo sem armas nucleares, mas confirma que, enquanto houver no mundo armas nucleares, a NATO permanecerá uma aliança nuclear».

Isto explica a posição assumida pela Itália a respeito do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, votado pela maioria, nas Nações Unidas, em 7 de Julho de 2017. Exprimindo profunda preocupação pelas consequências humanitárias catastróficas de qualquer uso de armas nucleares e reconhecendo a necessidade consequente de eliminar completamente essas armas, o Tratado compromete os Estados aderentes a não produzir nem possuir armas nucleares, a não usá-las, nem ameaçar usá-las, a não transferí-las nem a recebê-las, directa ou indirectamente. Este é o ponto fundamental de força do Tratado, que visa criar «um instrumento juridicamente vinculativo para a proibição das armas nucleares, que conduza à sua eliminação total».

O Tratado é votado em 2017 por uma maioria de 122 Estados, entre os quais a Austria, Bangladesh, Bolívia, Brasil, Cuba, Indonésia, Irão, Iraque, México, Myanmar, Nigéria, Nova Zelandia, Peru, Africa do Sul, Suécia, Suiça e Venezuela. O Tratado - que para entrar em vigor tem de ser assinado e ratificado por 50 Estados – é apenas vinculativo para os Estados que aderem ao mesmo e não os proíbe de fazer parte de alianças militares com Estados que possuem armas nucleares. Além do mais, cada um dos Estados aderentes «tem o direito de retirar-se do Tratado, se decidir que acontecimentos extraordinários relativos à matéria do Tratado possam colocar em perigo os supremos interesses do próprio país». Fórmula vaga que permite em qualquer momento a qualquer Estado aderente romper o acordo, dotando-se de armas nucleares.

O maior limite consiste no facto de que não adere ao Tratado nenhum dos Estados que possuem armas nucleares: os Estados Unidos e as duas outras potências nucleares da NATO, França e Grã-Bretanha, que possuem globalmente 7.000 ogivas nucleares; a Rússia que possui outro tanto; a China, Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte, com arsenais menores mas nem por isso, desprezíveis. Não aderem ao Tratado os outros membros da NATO, em particular a Itália, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda e a Turquia, que albergam bombas nucleares dos Estados Unidos da América. A Holanda, depois de ter participado nas negociações, esprime um parecer contrário no momento da votação. Não aderem ao Tratado, globalmente, 73 Estados membros das Nações Unidas, entre os quais surgem os principais parceiros  dos USA/NATO: Ucrânia, Japão e Austrália.

Não obstante esses limites, o Tratado das Nações Unidas sobre a Proibição das Armas Nucleares, constitui um marco sobre a única maneira viável de acabar no baralho da guerra nuclear. «Pelo seu empenho em chamar a atenção para as  consequências catastróficas humanitárias de qualquer uso de armas nucleares e pelos seus esforços inovadores para uma proibição dessas armas com base num tratado», a International Campaign to Abolish Nuclear Weapons (ICAN), uma coligação de organizações não-governamentais de uma centena de países, é distinguida com o Prémio Nobel da Paz, em 2017.

O Tratado é aberto às assinaturas, no Palácio de Vidro, em New York, em 20 de Setembro de 2017. No dia anterior, na Câmara dos Deputados, em Roma, é aprovada uma moção que compromete o governo a «continuar a perseguir o objectivo de um mundo sem armas nucleares através da centralidade do Tratado de Não-Proliferação, avaliando, de forma compatível com as obrigações assumidas na Aliança Atlântica, a possibilidade de aderir ao Tratado para vetar as armas nucleares, aprovado pela Assembleia Geral da ONU». O Governo exprime «parecer favorável» sobre a moção, mas no dia seguinte, com os outros 28 membros do Conselho do Atlântico Norte, rejeita na totalidade e ataca o Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares.

O Conselho do Atlântico Norte, na Declaração de 20 de Setembro de 2017, sustenta que «um Tratado que não compromete nenhum dos Estados possuidores de armas nucleares não será eficaz, não aumentará a segurança nem a paz internacionais, mas arrisca-se a fazer o oposto, criando divisões e divergências». Também esclarece, sem meias palavras, que «não aceitaremos nenhum argumento contido no Tratado». Anuncia, igualmente, que «iremos intimar os nossos parceiros e todos os países que tencionarem apoiar o Tratado, a reflectirem seriamente nas suas implicações» (leia: entraremos em contacto para que não o assinem nem o ratifiquem).

O Conselho do Atlântico Norte desautoriza, portanto, os parlamentos nacionais dos países membros, privando-os da soberania de deciderem autonomamente se devem ou não aderir, ao Tratado das Nações Unidas sobre a Abolição das Armas Nucleares.

Isto colaca em termos muito claros a questão essencial: como é possível fazer qualquer coisa, em Itália, para desactivar a escalada nuclear e contribuir para a eliminação completa das armas nucleares, permanecendo numa Aliança que vos priva da soberania de decidir sobre uma questão de  importância fundamental e que confia a nossa «segurança» à «garantia suprema fornecida pelas forças nucleares estratégicas da Aliança, particularmente as dos Estados Unidos»?

Em essência, levanta a questão da Itália pertencer à NATO. Há quem diga que se pode permanecer na NATO, mantendo a sua autonomia de escolha, ou seja, tendo a possibilidade de decidir, de vez em quando, no parlamento nacional, se deve participar ou não, numa determinada iniciativa da Aliança Atlântica. Ilusão ou pior que isso. No Conselho do Atlântico Norte, as normas da NATO estabelecem: «Não há voto nem decisão maioritária», mas «as decisões são tomadas por unanimidade e de comum acordo», ou seja, de acordo com os Estados Unidos da América, a quem pertence, por direito, o cargo de Comandante Supremo Aliado na Europa e os outros comandos chave, compreendendo o do Grupo de Planificação Nuclear da NATO. Entre as muitas variantes de tal ilusão existe a dos F-35 americanos, aviões projectados para o ataque nuclear, sobretudo com bombas B 61-12, para cujo uso já se estão a preparar os pilotos italianos, para que possam ser usados pela Itália, com uma espécie de segurança que impeça o uso de armas nucleares.

No grande espectáculo mediático da política, os ilusionistas e os funâmbulos exibem-se, participando em marchas pela paz e assinando apelos para um mundo sem armas nucleares, ou seja, para algo que actualmente é impossível, mas não fazem nada para realizar o que hoje seria possível: uma batalha decisiva para libertar a Itália de armas nucleares, que não servem a nossa segurança mas que nos expõem a riscos crescentes. É o único modo, através do qual, em Itália, se pode realmente contribuir para desarmar a escalada que conduz à guerra nuclear, concretizando um verdadeiro passo em frente para a eliminação total das armas nucleares.

Para fazê-lo, é necessário bater-se em campo aberto, para que a Itália cesse de violar o Tratado de Não-Proliferação. Impondo aos EUA para que removam imediatamente as suas armas nucleares do nosso território nacional e, ao mesmo tempo, para que a Itália, ao libertar-se, adira ao Tratado das Nações Unidas sobre a proibição das Armas Nucleares. Mesmo que não houvesse tratado vinculativo, este seria o objectivo pelo qual lutar.

Os princípios da Constituição italiana e os verdadeiros interesses nacionais tornam indispensável a remossão do nosso território nacional não só das armas nucleares, mas das bases USA e das bases NATO sob comando USA, as quais, além de ter a função de projectar forças convencionais em acções ofensivas para o Sul e para Leste, têm a função de poder lançar um ataque nuclear das posições avançadas, situadas no nosso país, tornando-o um alvo prioritário de uma inevitável retaliação nuclear.

Por outras palavras, deve quebrar-se o Grande Tabú que domina o mundo político e institucional, indicando claramente o objectivo a atingir: a saída da Itália da NATO e a saída da NATO de Itália, para contribuir para a dissolução da Aliança Atlântica e de qualquer outra aliança militar. Objectivo considerado louco pelos que acreditam que a Aliança Atlântica é qualquer coisa sagrada e intocável; considerado perigoso por quem sabe que, colocando-se contra a NATO, põe em risco a sua carreira política; considerado impossível por quem pensa que não pode existir uma Itália soberana e neutra.

Os obstáculos que se interpõem à realização desse objectivo são gigantescos. O Poder dominante baseia a sua força não só nos instrumentos políticos, económicos e militares, mas sobre o controlo da mente, propósito possível através de um aparelho mediático globalmente difundido que, sobretudo através da televisão, induz a acreditar que existe apenas aquilo que se vê e não existe o que não se vê.

O controlo da mente através do aparelho mediático dominante permite, por um lado, tranquilizar a opinião pública escondendo as ameaças reais, por outro lado, alarmá-la, fazendo abrir, de vez em quando, hologramas de inimigos perigosos (hoje novamente o adversário russo, personificado por Putin), para, deste modo, justificar políticas de rearmamento, operações militares e guerras. E, sempre em função do controlo da mente, acreditar-se no espectáculo de que, depois de ter sustentado as guerras que demolindo Estados na totalidade (o último, o Estado da Líbia), provocaram êxodos de massas e hoje estão na primeira fila para acolher de braços abertos, as vítimas dessas mesmas guerras.

A grande maioria não sabe mesmo nada ou quasi nada, dos mecanismos que determinam a sempre, cada vez mais rápida escalada de guerra, tornando sempre mais real o cenário da terceira (e última)guerra mundial: a guerra termonuclear. Fala-se nos círculos restritos dos «viciados no trabalho», no «sal e pimenta» (em referência à cor do cabelo) dos quais os jovens estão em grande parte ausentes. Trata-se de sair do fechado, encontrando formas e idiomas para fazer compreender que o tempo se está a esgotar, que é necessário movermo-nos enquanto estamos a tempo. Por outras palavras, levar as pessoas a reagir, como baseados no instinto de sobrevivência reagiriam os habitantes de um condomínio se vissem  alguém acumular explosivos no porão de arrumos comum. Pelo contrário, quase ninguém reage, porque a maioria desconhece ou não sabe do que se trata, enquanto os Estados Unidos acumulam explosivos nucleares debaixo dos nossos pés.

O que devemos fazer, está nas mãos de cada um de nós. É necessário que cada um faça qualquer coisa, mesmo que seja pequena, mas que seja real, para trazer de volta o relógio do Apocalipse. É o caminho obrigatório através do qual passa  cada escolha para o futuro. O relógio do Apocalipse está a assinalar, apenas, as horas de um mundo sem futuro.

A seguir: 

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Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos